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Colunas - Ligia Silva: A seletividade da dor

  • 11 de dez. de 2016
  • 3 min de leitura

De 1939 a 1945 o mundo viveu um dos momentos mais sombrios da historia mundial. A segunda guerra veio acompanhada de um ódio mortal aos Judeus, um ódio tão grande que os segregava de qualquer coisa, comprar, vender, frequentar certos lugares. Mas a segregação aos Judeus não acabaria assim.


O ódio de Hitler aos Judeus ocasionaria a morte de mais de 6 milhões de judeus de diferentes formas. Paredões de fuzilamento, experiências cientificas, câmara de gás, pessoas queimadas e enterradas vivas em grandes aterros. Mesmo em pleno século XX, isso foi apoiado por alemães. Hitler conseguiu convencer que os Judeus eram a causa de todos os problemas da Alemanha. O ódio de Hitler ficou fora de controle. Até que ele quis criar uma raça superior, e nessa, até mesmo os alemães foram mortos.


A Alemanha e toda a Europa se envergonha dessa triste pagina da historia. As leis que punem europeus que negam o holocausto são as mais duras possíveis. Na Alemanha, quem negar o holocausto Judeu terá que cumprir prisão de cinco anos. Na Áustria, a prisão e mais severa ainda, são vinte anos de prisão. A Alemanha durante muito tempo se envergonhou do Holocausto Judeu e de toda segregação que a Segunda Guerra causou. Ate hoje tentam amenizar tais efeitos.


No Brasil, também houve um fato histórico muito doloroso. A escravidão do povo Africano no Brasil começou em 1530. Amparada pela lei e pela religião, mais de 5,9 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil pela coroa Portuguesa da pior forma possível. pessoas comuns, príncipes e princesas africanos, foram tratados piores que animais dentro de navios negreiros. Aqui, foram proibidos de falar sua língua nativa, obrigados a mudar de nome, forçados a abandonar a sua religião e proibidos de praticar suas lutas. Ou seja, os Africanos no Brasil tiveram que abandonar sua identidade para servir forçadamente.


A escravidão no Brasil durou quase 400 anos e só acabou sob ameaças da Inglaterra. Hoje são apenas 128 anos da abolição da escravatura, e mesmo não sendo escravizados hoje, os Afrodescendentes Brasileiros carregam ainda todo o racismo da era colonial e toda carga histórica que implica a cor de sua pele. Durante muito tempo os negros, mesmo após abolição, foram proibidos de frequentas escolas e de cultuar os orixás, tendo seus terreiros invadidos e queimados. Além de terem por muito tempo espaços negados.


Mesmo com toda historia de terror e dor da escravidão, não existem leis que proíbam os Afrodescendentes de serem ridicularizados. Temos uma lei que exige a obrigatoriedade da historia da África nas escolas, mas essa e totalmente ignorada por educadores. Tem a lei que pune racismo, mas as pessoas não tem medo de expressar seu racismo pois sabem que não serão presas se tiverem dinheiro. E qualquer ativista negro que lute em prol dos seus direitos é duramente criticado e apontado como "vitimista".


Essa semana circulou nas redes sociais a noticia que você pode ser escravagista por um dia numa fazenda em Vassouras – RJ. Uma senhora vestida de sinhá recebe turistas em sua fazenda. Com orgulho, ela exibe instrumento de tortura, os empregados da fazenda - naturalmente negros - e faz papel de mucama. Questionada se seu trabalho fazia apologia ao racismo a dona da fazenda respondeu: "Racismo por causa de que por que eu me visto como sinhá? e tenho mucamas que se vestem de mucamas?".

Imagina se na Alemanha fizessem um campo de concentração teatral com atores Judeus fingindo-se de mortos e outro ator fazendo um papel de Nazista com uma arma matando-os? Vocês acham que os holofotes mundiais iam passar batido? Que não geraria revolta? Claro que geraria. O holocausto Judeu foi uma das maiores aberrações do mundo.

A escravidão do povo Africano também foi uma das maiores atrocidades do mundo. Digna de vergonha. Mas no Brasil ela é naturalizada através de novelas que romantizam a dor e, recentemente, com turismo “teatral” e interativo entre sinhás e escravos.

O Brasil sempre enalteceu os imigrantes europeus, mas os escravizados africanos e seus descendentes não comove o Brasil, ao contrario causa repulsa. O Brasil é capaz de imitar a europa em tudo. Na comoção por qualquer fato histórico que cause dor ao povo europeu, menos quando se fala em leis que punam de verdade o racismo e a segregação.

Enquanto isso, nós Afrodescendentes seguimos lutando e mostrando que não estamos mais presos em fazendas, criados para servir. Estamos aqui para ocupar os espaços que nós foram negados. Estamos aqui para esfregar na cara do Brasil a sua falta de humanidade, seu elitismo e sua seletividade ao decidir o que é dor ou não. Estamos resistindo enquanto, parafraseando Emicida "a dor do judeu choca, a nossa vira piada".

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